Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS): fundamentos, políticas públicas e impactos na qualidade de vida

A busca por um cuidado mais humanizado, preventivo e integral tem impulsionado o crescimento das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) no Brasil e no mundo. Essas práticas ampliam o olhar sobre o processo saúde-doença, reconhecendo o indivíduo como um ser biopsicossocial — integrado em corpo, mente, emoções e contexto sociocultural.

No Brasil, a institucionalização dessas práticas representa um marco importante na consolidação de um modelo de atenção à saúde mais abrangente e alinhado aos princípios do cuidado integral.


A institucionalização das PICS no Brasil

A consolidação das PICS ocorreu no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) com a criação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), em 2006.

A PNPIC foi criada com objetivos claros:

  • Ampliar a oferta de cuidado no SUS;
  • Fortalecer a promoção da saúde e a prevenção de agravos;
  • Estimular práticas de baixo custo e alta resolutividade;
  • Valorizar saberes tradicionais e culturais;
  • Reforçar os princípios de universalidade, integralidade e equidade.

Inicialmente, cinco práticas foram incorporadas. Em 2017 e 2018, novas portarias ampliaram o número de práticas reconhecidas, fortalecendo ainda mais a política pública.


O que são as PICS?

As PICS são métodos terapêuticos que atuam na prevenção, promoção e recuperação da saúde, baseando-se em um modelo humanizado e centrado na integralidade do indivíduo.

Diferentemente de uma visão estritamente biomédica, as PICS consideram que fatores emocionais, sociais, culturais e até espirituais influenciam diretamente a saúde física e mental. Elas não substituem a medicina convencional, mas a complementam, ampliando possibilidades terapêuticas.


Principais práticas integrativas no SUS

Entre as práticas reconhecidas e ofertadas no SUS, destacam-se:

Acupuntura e Medicina Tradicional Chinesa

A acupuntura utiliza a aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo para restaurar o equilíbrio energético e funcional. Baseada na Medicina Tradicional Chinesa, essa prática considera a integração entre corpo e mente e tem sido amplamente utilizada para tratamento de dores crônicas, ansiedade, estresse e outros agravos.

Fitoterapia

A fitoterapia utiliza plantas medicinais e seus derivados no tratamento e prevenção de doenças. O Brasil possui regulamentação específica para produção e prescrição de fitoterápicos, garantindo segurança e qualidade.

Homeopatia

A homeopatia fundamenta-se no princípio dos semelhantes e no uso de substâncias altamente diluídas, buscando estimular a resposta natural do organismo.

Biodança

Criada por Rolando Toro, a biodança promove integração emocional e social por meio do movimento, da música e da afetividade. Estimula expressividade, fluidez, vínculo afetivo e respeito por si e pelo outro, favorecendo o reaprender a sentir e a conexão consigo mesmo.


PICS e saúde mental

As terapias expressivas despertam imagens do inconsciente, favorecendo:

  • Comunicação consigo e com os outros;
  • Redução de tensões;
  • Estímulo à criatividade;
  • Desenvolvimento da autonomia emocional;
  • Apoio complementar ao diagnóstico e acompanhamento terapêutico.

Essas práticas têm sido importantes aliadas na prevenção e no cuidado em saúde mental, contribuindo para uma abordagem menos medicalizante e mais centrada no sujeito.


Atividade física ao longo da vida

A prática de atividades físicas é uma estratégia essencial de promoção da saúde física e mental e pode ser integrada às PICS.

Na infância

Há desenvolvimento das habilidades motoras fundamentais, como estabilidade, locomoção e manipulação.

Na adolescência

Ocorre consolidação e aplicação dessas habilidades em contextos esportivos, recreativos e artísticos.

Na vida adulta

O foco está na manutenção e no aperfeiçoamento das capacidades físicas e funcionais.

Na terceira idade

Há necessidade de adaptação das ações motoras para preservação da autonomia, prevenção de incapacidades e promoção da qualidade de vida.


Doenças crônicas, envelhecimento e qualidade de vida

Doenças crônicas estão associadas a impactos negativos na qualidade de vida e aumento do risco de depressão, especialmente em idosos. Condições como dores incapacitantes e incontinência urinária afetam a autonomia, geram estigmas sociais e comprometem o bem-estar emocional.

Nesse contexto, as PICS atuam como complemento terapêutico importante, promovendo equilíbrio físico e emocional e fortalecendo o autocuidado.


Corpo, emoção e consciência

Estudos apontam que consciência corporal e regulação emocional compartilham circuitos cerebrais comuns. Emoção envolve alterações corporais e cerebrais; sentimento é a interpretação mental dessas alterações.

Assim, corpo e mente não podem ser dissociados. Práticas como meditação, terapias corporais e biodança fortalecem essa integração, auxiliando no equilíbrio emocional e na manutenção da saúde.


Implementação das PICS no âmbito municipal

Para implementar as PICS, é necessário:

  • Formar equipe gestora interessada e capacitada;
  • Elaborar plano de ação estruturado;
  • Avaliar as necessidades locais;
  • Garantir capacitação profissional;
  • Incentivar a participação social.

A indicação das práticas deve ser individualizada, considerando condições clínicas, sociais e econômicas do paciente, garantindo segurança e efetividade.

 

Considerações finais

As Práticas Integrativas e Complementares representam uma ampliação significativa do cuidado em saúde. Elas promovem prevenção, humanização e integralidade, fortalecendo os princípios do SUS.

Ao integrar ciência, tradição e visão ampliada do ser humano, as PICS reafirmam que saúde não é apenas ausência de doença, mas um estado de equilíbrio físico, emocional e social. Trata-se de um modelo que valoriza a autonomia, o autocuidado e o respeito à singularidade de cada indivíduo.


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